domingo, 8 de novembro de 2009

"Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais"

Desde muito cedo aprendi que nada na vida é de graça. Tudo tem seu preço. Meus pais me ensinaram que para eu conseguir as coisas eu teria que batalhar, e batalhar muito. Vi meus irmãos começarem a trabalhar cedo e não passou muito eu já trabalhava para poder ter as minhas coisas, para poder construir a minha vida, enfim, para me manter. Vejo tudo isso como um reflexo daquilo que meus pais viveram no passado. Minha mãe, com minha idade, já tinha 3 filhos: Rodrigo, Leandro e eu, e junto com meu pai, apenas um ano mais velho que ela, já sustentavam uma casa. Fico imaginando o quão difícil deve ter sido para os dois essa transformação na vida deles. Não consigo imaginar a minha geração vivendo da maneira que eles viveram. Hoje as meninas engravidam, permanecem na casa dos pais, continuam os estudos, as baladas, a vida normal. São os avós que tornam-se os responsáveis pela criação dos netos, pois os seus filhos não devem perder o melhor da vida: a juventude. Juventude essa que meus pais e muitos outros pais perderam para seguirem as regras de uma sociedade que não permitia mães solteiras, jovens desempregados, viagens de intercâmbio, faculdades particulares, noitadas e baladas em pleno dia da semana. Juventude essa que teve que aprender cedo a construir sua própria vida sem ajuda dos pais, sem poder acordar um pouco mais tarde porque todo dia “era dia de branco”. Juventude essa que meus pais viveram e que, por algum motivo, acharam que eu também deveria viver.
Estou com 26 anos, mas muitas vezes me sinto um homem de 40 anos, com muitas responsabilidades. Trabalhar de segunda à segunda, quase sempre sem folga, muitas vezes me desanima. Fico me perguntando porque não fui criado como muitos jovens – jovens esses que me rodeiam no trabalho, na minha vizinhança, e até mesmo na minha família –, que não têm compromisso com nada, mas que sempre têm dinheiro na carteira, estão sempre com roupa da moda, corpo sarado, na balada, acompanhados de pessoas bonitas e sempre sorrindo nas fotos. Despreocupados com o mundo, preocupados apenas com a próxima festa.
Não estou reclamando da criação que meus pais me deram, muito pelo contrário, sou muito grato por tudo. Sou responsável, honesto, independente. Mas gostaria de ter vivido mais minha juventude. Por mais que eu tente, não adianta, eu sempre estou trabalhando, estudando, tentando melhorar minha vida. Cinco empregos não me bastam, ainda não faço o que quero de verdade. Ou até faço, mas não da maneira que sonhei. Me julgam quando eu saio com os amigos, me julgam quando eu organizo festas, me julgam se eu perco meu tempo falando bobeiras ou batendo papo no telefone, mas nunca me julgam quando saio para trabalhar, quando perco meu tempo em um engarrafamento voltando do trabalho, quando organizo um evento para ajudar minha Igreja ou quando gasto meu telefone celular ligando para os alunos do curso. É uma lamentação? Sim, é uma lamentação. E daquelas que só quem está escrevendo sabe ao certo explicar. É uma lamentação daquelas que incomoda a mente, o físico e o coração. É uma lamentação verdadeira, de quem quer mudar, quer viver e percebe que o tempo está passando e nada está sendo feito para que as coisas se modifiquem. Só agora estou aprendendo a dizer não, só agora estou decidindo como quero viver realmente. Acho que chegou minha vez. Que não seja tarde demais.

“Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.”